Parem Este Trem que Quero Descer Já! – Causos Médicos

Posted on 22/05/2009

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Estou preparando para este meu terapêutico diário um Post sobre nosso encontro #pacienteinformado promovido pelos vanguardistas InterSystems e Grupo Polvora – por que não? – e pintou uma idéia pra aproximar a massa formadora de opinião de nós, os médicos.Precisamos que vocês compositores da velha e nova mídia compreendam nosso trabalho.Escreverei pequenas histórias cheias de erros, em meu ponto de vista, que afetam a relação fundamental e primordial do nosso trabalho: a relação médico-paciente.Espero que os comentários de eventuais leitores interessados pelo tema, identifiquem estes erros e façam surgir uma nova idéia da profissão que faço parte e luto pra que seja – ou volte a ser – tratada com o respeito que merece. Somos indivíduos que continuam a história de 5 mil anos atrás e que pedimos ajuda através da supra-informação prestada pela Web.
Vamos começar mais um episódio da terapia blogueira de Ch.B.f. …


Há pouco…pouco tempo atrás num Pronto Socorro de um grande hospital da nossa querida Megalópole Sampa:

PS:Nomes e locais fictícios.Caso realístico.

Dia quente,mas o arcondicionado dava vencimento. Quem tava lá fora, tava no calor.Dentro da unidade tava confortável.O Hitachi marcava 20 graus.Xavier era médico ortopedista dedicado a sua profissão faziam 20(vinte) anos. Esta dedicação e zelo ja haviam rendido respeito profissional entre seus pares o suficiente pra se tornar referência de tato profissional.Várias vezes negou convites de grandes universidades para empreender pesquisa na area médica.O que lhe interessava era atender o doente. Descobrir dentro da complexidade do ser humano o que afligia. Queria curar. Era um dom, ele sentia isso. A ortopedia te trazia ainda mais prazer, pois a qualidade de vida que devolvia a seus pacientes se fazia escutar, quase sempre, a frase que mais gostava e que estava acima de qualquer honorário médico: "Dr, muito obrigado". Aquele era mais um dia como outro na atividade do Dr Xavier…
– Patrícia Ferreira! – Patrícia entra no consultório.
– Bom dia Patrícia – Dr Xavier educadamente.
– Dr, eu quero um ultrassom…
– Bom dia Patrícia.
– Ah…bom dia, mas eu vi aqui pro senhor pedir uma ultrassonorafia do meu braço…tenho tendinite, esse caroço aqui e hoje nem fui pro trabalho…claro né?
– Veja bem Patrícia, não é bem assim, preciso examinar você primeiro e aí sim…
– Não, não precisa, eu quero um ultrasson – já interrompendo, exasperada, o agora quase atônito Xavier …
– Por mais que eu indicasse, após o exame, um exame de ultrassom pra você, isto, o exame, não tem indicação na urgência…ou seja se pedisse, mesmo contrariando a minha conduta,seu convênio não iria autorizar. Este caso, possivelmente um cisto sinovial não é conduzido como uma urgência…
– Ah tá…e como você sabe que é isto…só olhando!
– Temos um pouco de experiência nestes casos…mas…por qual motivo você está falando alto comigo Patrícia?
– Quero falar com o chefe da ortopedia, pois não vim aqui pra você só olhar e nem pedir exame nenhum!
– Pode falar…sou eu mesmo…
– Ah você…então quero falar…quero reclamar disso…isso não pode, pagar caro no convênio e nem ultrassom poder fazer, porque o médico não pede!
– Pode sair da minha sala por favor e pode reclamar que eu acho que a senhorita tem este direito sim. Xavier já tinha experiência.Este não era o primeiro e não seria também a última vez que, em seu ambiente de trabalho, lidava com uma situação destas.
Passados uns 10 minutos, já em outro atendimento e com a serenidade de sempre,a Gertrudes responsável pelo SAC da instituição, vai bater a porta do Dr Xavier – Dr, posso entrar – pergunta Gertrudes – Pode sim,claro Gertrudes, tudo bem, como vai o joelho do seu pai?
– Tá ótimo Dr, obrigado por tudo…ahn…mas…mas, Dr tem uma moça lá em cima dizendo que foi maltratada no atendimento prestado pelo senhor agora há pouco – a constrangida Gertrudes, pois essa era a primeira vez em 6 anos de uma reclamação com o Dr Xavier, sempre tão prestativo.- Ela tá chorando lá em cima dizendo que quer falar com o Diretor do hospital.
– Sim e aí.
– E aí que eu não sei o que fazer – ainda constrangida – o Sr é o chefe da ortopedia e…
– Acho que você tem que fazer o seu trabalho.Não tem problema,repasse a reclamante para o Diretor Clínico.
Passado uns 30 minutos, Dr Xavier, mais tranquilo na rotina do seu trabalho,curioso e sempre interessado por todos os pacientes que por ele passavam – mesmo os "problemáticos" – procurou saber sobre o caso da Patrícia, com a Gertrudes do SAC – Ah o doutor Michael, diretor clínico, já resolveu.Ele mesmo pediu o ultrassom dela…
– O que?Ele fez o quê?
– Pediu o ultrassom dela e agora ela quer saber se pode mostrar ao senhor. Ela pode passar hoje ainda?
– Não ela não pode, pois não vou mais atendê-la…a relação médico-paciente foi quebrada e vou conversar com Dr Michael agora.
Sentado em seu gabinete de Diretor Clínico do Saint Elisabeth Brazillis Hospitals, o Dr Michael formado numa das mais brilhantes universidades do Brasil, tinha pouca experiência em setores de urgência.Estava ali por ser filho do benfeitor hemérito do nosocômio e ter feito curso de gestão no XPTO, MBA de destaque no maior estado da federação.
– Fala Xavier, o que manda cara, tudo bem?
– Deixa eu te passar uma coisa Michael Junior Stompson, nos conhecemos há quanto tempo?
– Desde que eu era estudante e te acompanhava naqueles longos plantões no Xucr-Utes Memorials…ma…ma…mas por quê?
– Como você, meu superior hierárquico e teoricamente defensor dos nosso interesses frente a unidade hospitalar,eleito de forma democrática pelos nossos colegas, inclusive do grupo que chefio …
– Claro – interrompendo e já esperando a "pedrada" que vinha do outro – e só temos elogios seus e de sua equipe…
– …e o que você fez em relação ao caso da Patrícia – continuou o Xavier – é éticamente inaceitável…não vou denuncia-lo à comissão de ética,mas cabia uma representação minha…não quero prejudicá-lo.Você não é especialista na area.Você pediu um exame, sem conhecimento de causa.Contrariou a conduta de um especialista do serviço que você coordena, apenas pra se livrar de uma paciente emocionalmente instável? Saiba que ficou muito bom pra ela e ruim pro hospital.Você a ajudou a burlar o sistema já falho.Manteve-o dentro do erro. Sua função,pelo cargo de gestor que ocupa é procurar seu conserto.Depositamos confiança em vocês, nossos gestores. Acha que ninguém vai saber deste "quase escandalo" não é? Eu vou saber, um colega seu vai saber, pois você rompeu barreiras éticas inaceitáveis para o cargo que ocupa ("você é um cuzão " pensou e lembrando do Jonatas, seu filhinho definindo um "semnoção",mas preferiu ficar no politicamente correto)…acomodado em seu gabinete você precisa se alinhar com o que seus colegas anseiam pra melhorar nosso meio profissional.O que você acha que fez?
– É eu sei, até te entendo, mas esta "louca" já está até mais calma agora e veja só…quer mostra o exame a você – tentando se redimir da merda feita.
– Michael,depois de seis anos de faculdade, três de especialização, um de superespecialização, coordenando três serviços de ortopedia,você acha realmente que não consigo distinguir um Cisto Sinovial. Não preciso de nenhum exame pra isto.Tchau Michael, melhor você "abraçar" o caso, pode continuar seu tratamento.Abraços e lembranças a sua mãe (sem trocadilho,pois Xavier já havia curado a lesão de Manguito Rotador da paciente, mãe do Michael)

É…compositores das novas mídias,parem o trem que quero descer! Neste jogo dos mais de sete erros – vários – quem se arrisca a identificá-los?


Comentários Ch.B.F. : este post inaugurará nova seção de casos médicos que irão ilustrar a situação dos médicos do nosso país. Não haverá senasacionalismo. Se algum colega médico discordar das histórias,por favor manifeste-se.

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